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Enterrados no Jardim

Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
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  • Enterrados no Jardim

    O artista contemporâneo, esse activista financeiro. Uma conversa com António Pinto Ribeiro

    04/07/2026 | 3h 5 mins.
    No início dos seus manuscritos, de 1844, Marx escreve qualquer coisa como «o meu próximo é o dinheiro», e o poeta francês Christophe Hanna admite que esta declaração pode ser entendida como uma indiciação de que o dinheiro determina as nossas vidas num tal grau que não nos livramos de qualificar os outros e a relação que com eles estabelecemos a partir da fortuna que lhes atribuímos. No fundo o dinheiro actua como um «capcioso parasita» (António Vieira) capaz de conduzir o hospedeiro a seu bel-prazer. Este parasita que se apropriou inteiramente dos destinos das sociedades pós-históricas, alcançou esse efeito prodigioso, diz-nos Vieira, ao infiltrar-se em todas as esferas do espaço humano, desenvolvendo um parasitismo de alta virulência: «fazendo-se desejar sem limite, inverte os papéis e põe a sociedade ao seu serviço até fazer perigar a sobrevivência do hospedeiro.» A narcose que este gera é tão profunda, que tudo se submete às suas leis, e ele deforma a própria realidade física através do homem, que se torna o agente dessa força viral. Como um astro negro, este irradia subtilmente a sua promessa que acaba por dominar o curso do mundo. Borges notou que «nada há de menos material do que o dinheiro, pois qualquer moeda (uma moeda de vinte cêntimos, digamos) é, em rigor, um repertório de futuros possíveis». Mas esse tempo futuro não nos pertence, na verdade os homens não são ricos, tanto como se tornam seres possuídos pelo dinheiro. O dinheiro é uma função que transtorna inteiramente a razão moral de um ser ao ver-se capturado pela sua influência, por essa excepção que nos desintegra sucessivamente até levar a um desinvestimento de todos os afectos e ligações, e desse desejo de autonomia, de liberdade, a qual não existe a não ser enquanto luta com o seu contrário. A adesão significa uma perda de si, uma diluição, enquanto o homem se cinge aos fins do próprio dinheiro, que visa a multiplicação, e que determina que toda a coisa, todo o bem, todos os seres, no esforço de se realizarem no mercado, passem a definir-se apenas segundo essa necessidade de competir com todas as outras mercadorias. Como nos diz Huysmans, «o dinheiro atrai-se a si próprio, procura aglomerar-se nos mesmos locais, vai de preferência parar aos celerados e aos medíocres; e depois, quando uma inescrutável excepção o leva a acumular-se num rico de alma não criminosa nem abjecta, permanece estéril, incapaz de se converter num bem inteligente, e entre mãos caridosas nem mesmo é apto a alcançar um fim elevado. Dir-se-ia que vinga assim o seu destino falso, se paralisa voluntariamente quando não pertence ao último dos trapaceiros nem ao mais repelente dos malandros.» A forma como o dinheiro se impõe passa desde logo por submeter a si o tempo e todas as funções cronológicas, de modo a neutralizar o Kairós, essa capacidade de ler no inesperado, de se aproveitar do acaso na forma como este procura corroer os enredos coercivos que visam tornar-nos meros espectadores passivos das nossas próprias vidas, existências paralisadas. O triunfo do capital significa essa redundância absoluta, num encadeamento que conduz ao fenómeno do presentismo, esse tempo que se define pela eterna hipnose do presente. Isto faz de nós seres dominados por uma compulsão para refazer o mundo segundo a lógica carcerária que exponencia as dinâmicas preditivas. A nossa época define-se, assim, como um nó temporal, uma sobreposição de tempos assombrados, em que o passado se dissolve nesses ecos ou reflexos comprometidos com o efémero e a contingência, dificultando a capacidade de recuperar as referências e, mergulhando na tradição, reactivar as sobrevivências de outras eras. Nem o futuro aquilo que nos ocupa, mas uma sua projecção que acaba por gerar a impotência, vivendo-se por antecipação apenas na correspondência com um desejo mórbido que se devasta a si mesmo, sendo que as promessas se concatenam e se tornam imediatamente perecíveis. O dinheiro não é, por isso, tão-só um equivalente absoluto, mas ele actua no espírito dos homens produzindo uma metamorfose que os tranca fora dessas cogitações inebriadas pelo tempo longo da história, sendo que em todos os domínios da vida, as obsessões presentistas levam ao colapso temporal, um tempo liso que não permite que nada se sedimente. Daí a tendência desde há algumas décadas para o deperecimento das formas artísticas, uma vez que esta lógica carcerária, mais do que nos confinar no espaço, vulnera-nos ao estarmos mergulhados num ritmo em constante aceleração que impede aquela maturação lenta que sempre esteve na base das principais realizações do espírito, e especificamente na arte que se fez até à modernidade. Hoje, devemos reconhecer como a arte contemporânea mais do que definir um conjunto de práticas que já não correspondem a critérios ou formas estáveis, numa relação tensa com a tradição, mas ao cooptar e misturar processos e linguagens com uma crescente indiferença pelas suas funções originárias, coloca-se como uma estação situada no ponto extremo da aceleração. Como nos diz o filósofo francês Yves Michaud, esta «indiferenciação dos géneros artísticos e coexistência de critérios estéticos provindos de tradições artísticas diferentes – uma paisagem chinesa, um rosto de manga japonês, um graffiti urbano, uma abstracção geométrica cientista, uma pintura abstracta expressionista ou monocromática, etc. – neutralizaram todos os critérios em favor daquilo que pode chamar-se ‘pluralismo indiferentista’». No fundo, o paradigma da arte contemporânea que infectou e contagiou tantas outras esferas da realização artística determinou que fosse o próprio conceito de arte que se dissolveu. Hoje, tudo é arte, porque a própria arte foi dominada pelo dinheiro, e está hoje inteiramente capturado pelos enredos da valorização e especulação das mercadorias, conferindo glamour, aura, brilho, confundindo-se nos seus fins com a própria ideia de luxo, de definição das tendências, sendo que ao artista não restou outra escolha senão tornar-se produtor, fabricando em série a partir de um modelo genérico, oferecendo ao mercado objectos produzidos que dizem sempre o mesmo, tornando-se idênticos, porque não servem para outra coisa senão para corresponder a uma marca, não se distinguindo nos fins do da publicidade. Voltando a Huysmans, este vinca como o dinheiro «torna lúbrico o indigente mais casto, actua de uma só pancada no corpo e na alma, e a quem o possui sugere um egoísmo baixo, um orgulho ignóbil, aconselha a gastá-lo apenas consigo próprio, do mais humilde faz um lacaio insolente, do mais generoso um larápio. Num segundo altera todos os hábitos, transtorna todas as ideias, num abrir e fechar de olhos transforma as paixões mais teimosas.» Aquilo que subsiste são apenas as paixões tristes de que falava Espinoza, desde logo a do dinheiro. Por isso mesmo, esta conjunção de todos os destinos, não deixa já margem a esses processos artísticos que se definiam pela resistência, pela «negação contínua daquilo que ameaça suprimir a própria liberdade» (Hegel). Bolaño, que nunca foi outra coisa senão um espírito que se alimentava das formas que, contrariando o monoteísmo do mercado, procuravam resgatar aquele politeísmo da imaginação, lamentava-se da perda da função social da literatura… «Que podem fazer Sergio Pitol, Fernando Vallejo e Ricardo Piglia perante a avalanche de glamour? Pouca coisa. Literatura. Mas a literatura não vale nada se não vier acompanhada de algo mais refulgente do que o mero acto de sobreviver. A literatura, sobretudo na América Latina, e suspeito que também em Espanha, é sucesso, sucesso social, claro, isto é, grandes tiragens, traduções para mais de trinta línguas. Os escritores actuais já não são, como bem fez notar Pere Gimferrer, senhoritos dispostos a fulminar a respeitabilidade social, nem muito menos um bando de inadaptados, mas gente saída da classe média e do proletariado, disposta a escalar o Evereste da respeitabilidade, desejosa de respeitabilidade. São louros e morenos, filhos do povo de Madrid; são gente da pequena burguesia que espera terminar os seus dias na alta burguesia. Não rejeitam a respeitabilidade. Procuram-na desesperadamente. Para a alcançar têm de transpirar muito. Assinar livros, sorrir, viajar para lugares desconhecidos, sorrir, fazer de palhaço nos programas cor-de-rosa, sorrir muito, sobretudo não morder a mão que lhes dá de comer, assistir a feiras do livro e responder com boa disposição às perguntas mais cretinas, sorrir nas piores situações, fazer cara de inteligentes, controlar o crescimento demográfico, agradecer sempre.» Que outra coisa vemos por estes dias tomar conta de todos os programas e «eventos» culturais senão isto? O que se andou a tramar por estes dias ali no Porto? Espécie de assalto sem se mexer muito, procurando excitar um tão bacoco fervor regionalista, propor os valores locais, poetas alinhados como artigos numa feira de produtos de uma cidade que há muito, tal e qual como Lisboa, não está em condições de lutar contra nada, nem contra a erosão de qualquer ordem de valores face à sua conversão em manta de retalhos, de atracções turísticas e activos financeiros, e assim, vimos Arnaldo Saraiva, num artiguelho encomendado, render-se à impostura de um reles promotor de valores regionais, fornecendo uma "selecção" de entre alguns perfis seguros, aspirantes e os habituais basbaques que ajudam a engrossar o lote, e, logo ele que tanto gosta dos brasileiros, parecia esquecer essa sóbria lição de «política literária» que nos deu Drummond de Andrade: «O poeta municipal/ discute com o poeta estadual/ qual deles é capaz de bater o poeta federal.// Enquanto isso o poeta federal/ tira ouro do nariz.» É só mais um entre uma série de promotores que, logo que foi posto algum dinheiro à disposição para a campanha, com o fim de reclamar que a cidade ainda mexe, provando que esta direita não quer fazer como a do último autarca social-democrata, que limpou o cu à cultura, e veja-se como se engendrou logo o patético golpe, como se encheram de presságios estes coronalecos, que luzes, e que maneiras agora, com a entoação favorecida por aquele lance de escadas da pronúncia, mas, desta feita, em vez do vernáculo, da bojarda que nos fazia sentir o gosto às tripas, temos uns assanhados prontos para fazerem da cultura o partido geral, nesse modo prático de ir com quem tiver o maço delas, esbanjando a esmola, multiplicando o pão abstracto, e olhó blazer que ali vem, Couceiro-argonauta-da-volta-à-terra-na-treta, lá vem, e garantem-nos que é tempo do rapaz, este que sofre daquela ternura publicitária pelos livros, vai morrer de letriose, uma cirrose de tanto ir ao fundo do tinteiro, das mil maneiras como se enrola com as sílabas numa tal felação, industrioso chouriceiro, cheio dessa bibliogarrulice, messias que irá salvar os canhenhos da glutonice da bicharia da prata, e aí vem o parque temático para os que tanto gostam de comer a erva das passadeiras em vez de a pisar, e se qualquer palco serve a quem vai partir prò infinito, que imortal salsada, vamos pôr a invicta a ler até desmaiar de inanição, vai fundar-se uma disneylândia das bovarinhas, com lendas que as levem para a cama e as aturem, enquanto põem ovos e os cornos ao pobre Charles, umas com as outras a desfiar delírios pelos festivais em vez de engolirem duma vez a merda do arsénico. Ora, neste episódio, e para pôr alguma ordem nisto, tivemos a companhia de António Pinto Ribeiro, alguém que tem pensado e exercido um papel enquanto programador cultural, buscando construir enredos de ordem excepcional que permitam ainda resistir à moral do lucro, a estas engrenagens submetidas de mil maneiras aos mecanismos do poder, nomeadamente neste quadro que serve para promover os artistas dóceis e inócuos, atrapalhando os potencialmente ameaçadores.
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    Os arquitectos da guerra que virá. Uma conversa com Marta Lança

    26/06/2026 | 4h 37 mins.
    Acho que fica bem claro como estava já tudo descrito muito antes de termos nascido. Como nos lembra Sven Lindqvist, a palavra «Europa» deriva de uma palavra semítica que significa apenas «escuridão». E, de resto, como ele também vinca, «a distância entre a ideia do extermínio e o coração do humanismo não é maior do que a existente entre Buchenwald e a Goethehaus em Weimar. «Essa percepção foi quase completamente reprimida, até mesmo pelos alemães, que foram transformados num bode expiatório por perfilharem ideias que constituem de facto uma herança europeia comum.» No livro Exterminem Todas as Bestas, ele faz ainda este reparo: «Ninguém chama a atenção para o facto de, durante a infância de Hitler, um dos principais elementos na visão europeia da humanidade ser a convicção de que as ‘raças inferiores’ estavam por natureza condenadas à extinção: a verdadeira compaixão das raças superiores consistia em facilitar-lhes o desaparecimento.» Lindqvist ainda nos remete para a etimologia desse termo tão banalizado hoje – extermínio. «O latim extermino significa ‘conduzir para fora’, terminus, ‘exilar, banir, excluir'. Daí deriva o português exterminar, que significa ‘conduzir para fora, para a morte, banir da vida’.» É muito evidente, por isso, como as nossas sociedades estão baseadas na lógica da exclusão, em que a própria noção de triunfo se liga à capacidade de gozar de privilégios exclusivos, e como esta orienta, por si mesma, uma educação para o extermínio. E se estamos sempre à espera de uma revelação estrondosa, o que se torna cada vez mais claro por estes dias é que o inferno não é mais impressionante do que isto. De um lado toda esta indiferença, do outro só resta o momento em que alguém, tendo poder sobre nós, fará o que tem a fazer. Mistério de espécie alguma virá soprar aos nossos ouvidos uma noção que nos sirva como um ponto de não retorno. «Quando sábios sentados nos seus cadeirões, há já muito tempo, se puseram a descrever as aparências e os costumes do Homo Economicus, muitas pessoas não acreditaram nas suas palavras e chamaram o homem real de homem abstracto. Ninguém então se podia dar conta de que esses professores e esses calculadores estavam simplesmente a descrever a nova existência abstracta da humanidade e assinalavam os primeiros eclipses do homem real. Ninguém suspeitava de que a sua descrição só parecia abstracta pela fidelidade à abstracção do seu novo modelo» (Nizan). Neste episódio, impulsionados pelo enredo nervoso, cumulativo, indagador, dessa proposta de uma etnografia dos ambientes circundantes que a Marta Lança acaba de lançar (Essas Pessoas na Sala de Jantar), mergulhamos em tantos dos elementos que sinalizam como a geração de que fazemos parte gozou de um período de intervalo extraordinário em que se permitiu iludir com a perspectiva da superação ou supressão da História, sendo que muita da nossa ilusão hoje alimenta um mal-estar desafiante, obrigando a redescobrir com uma inusitada estranheza tantos capítulos das nossas vidas, e reconhecendo como estes poderão ser lidos dentro de alguns anos como os sinais de uma espécie de privilégio fabuloso e ofensivo.

    Realidade dissolvida. Existência de fumo. Paixões de sonhos. Nem tido nem achado, o homem passou para a conta dos lucros e das perdas.

    Existe um trabalho e uma posse real, quero dizer, nos camponeses, nos artesões, nos poetas, para os quais a posse significa a unidade da acção, do preço e do produto. Mas os burgueses produzem e possuem abstractamente. Como há muito herdaram de Israel, passam a vida a emprestar com juros. Comanditam, pobre ou grandemente, são portadores de obrigações e ganham somas abstractas pagas por devedores abstractos: uma cidade, uma companhia, um Estado, um caminho-de-ferro. Ou possuem acções: operários de carne trabalham para prolongar a sua existência de fantasmas. Entre os seres e eles, a vida humana e eles, a banca é seguida pelo seu cortejo fantástico de bolsas, de cargos, de correctores de câmbios. O género de posse e de lucro burguês separa-os de tudo aquilo que é real: conhecem apenas sinais e contactos feéricos à distância. O seu mundo é mágico. No dia em que estas pessoas tiverem nas mãos um poder timbrado, um título verde, participam na natureza mística de um ser que não existe. Absorvem as suas hóstias de capital.

    Eles não são. São conduzidos pelos demónios da abstracção. Que pensam eles? Quem os pensa? Estados civis, catálogos. Ricos com etiquetas como uma velha mala de viajante. Nos sólidos regulares dos seus quartos, fecham à chave todos os seus repertórios de sinais e emblemas, para dormirem um sono tranquilo: uma brochura de casamento, uma cédula militar, um cartão de eleitor, e a escuma de papel que deixa a circulação do dinheiro nas casas dos homens.

    Todos os monumentos de França defendem o estado mágico destes homens. A sua vida de asilo está protegida, em todos os pontos cardinais, contra as tentativas da vida ao ar livre. É impossível respirar, está-se no fundo de um poço. Eu sei porque é que me sentia a sufocar, já não é um sufoco obscuro, um movimento cego de se debater num sonho, mas a mutilação ao sol, a asfixia em pleno dia. Tudo o que está de pé em torno de mim pertence aos meus inimigos. Eu não tenho nada, não tiro prazer de nada. Vejo por toda a parte as provas de pedra da sua dominação, as igrejas, os palácios nacionais, as casernas, os institutos, os comissariados, os palácios da justiça, os bordéis, os ministérios. Não se pode estender os braços sem tocar com a ponta dos dedos na porta de um banco, no peito de um agente, de um cavaleiro da Legião de Honra. Conseguirei eu fazer escapar a mulher que amo? Eles põem entraves nas rodas do amor. Acorrem de todos os lados ao local onde se faz ouvir uma palavra de protesto, onde se produz uma tentativa de libertação. Quando se retiram, deixam o lugar limpo: os seus polícias, os seus mirones e os seus sábios agem com a certeza sonhadora das máquinas.» Acho que fica bem claro que estava tudo descrito muito antes de termos nascido. Como nos lembra Sven Lindqvist, a palavra «Europa» deriva de uma palavra semítica que significa apenas «escuridão». E, de resto, como ele também vinca, «a distância entre a ideia do extermínio e o coração do humanismo não é maior do que a existente entre Buchenwald e a Goethehaus em Weimar. Essa percepção foi quase completamente reprimida, até mesmo pelos alemães, que foram transformados num bode expiatório por perfilharem ideias que constituem de facto uma herança europeia comum.» No livro Exterminem Todas as Bestas, ele faz ainda este reparo: «Ninguém chama a atenção para o facto de, durante a infância de Hitler, um dos principais elementos na visão europeia da humanidade ser a convicção de que as ‘raças inferiores’ estavam por natureza condenadas à extinção: a verdadeira compaixão das raças superiores consistia em facilitar-lhes o desaparecimento.» Ele ainda nos remete para a etimologia desse termo tão banalizado hoje – extermínio. «O latim extermino significa ‘conduzir para fora’, terminus, ‘exilar, banir, excluir'. Daí deriva o português exterminar, que significa ‘conduzir para fora, para a morte, banir da vida’.» É muito evidente, por isso, como as nossas sociedades estão baseadas na lógica da exclusão, em que a própria noção de triunfo se liga à capacidade de gozar de privilégios exclusivos, e como esta leva, em si mesma, uma educação para o extermínio. E se estamos sempre à espera de uma revelação estrondosa, o que se torna cada vez mais claro por estes dias é que o inferno não é mais impressionante do que isto. De um lado toda esta indiferença, do outro só resta o momento em que alguém, tendo poder sobre nós, fará o que tem a fazer. Mistério de espécie alguma virá soprar aos nossos ouvidos uma noção que nos sirva como um ponto de não retorno. «Quando sábios sentados nos seus cadeirões, há já muito tempo, se puseram a descrever as aparências e os costumes do Homo Economicus, muitas pessoas não acreditaram nas suas palavras e chamaram o homem real de homem abstracto. Ninguém então se podia dar conta de que esses professores e esses calculadores estavam simplesmente a descrever a nova existência abstracta da humanidade e assinalavam os primeiros eclipses do homem real. Ninguém suspeitava de que a sua descrição só parecia abstracta pela fidelidade à abstracção do seu novo modelo» (Nizan). Neste episódio, impulsionados pelo enredo nervoso, cumulativo, indagador, dessa proposta de uma etnografia dos ambientes circundantes que a Marta Lança acaba de lançar (Essas Pessoas na Sala de Jantar), mergulhamos em tantos dos elementos que sinalizam como a geração de que fazemos parte gozou de um período de intervalo extraordinário em que se permitiu iludir com a perspectiva da superação ou supressão da História, sendo que muita da nossa ilusão hoje alimenta um mal-estar desafiante, obrigando a redescobrir com uma inusitada estranheza tantos capítulos das nossas vidas, e reconhecendo como estes poderão ser lido dentro de alguns anos como os sinais de uma espécie de privilégio fabuloso e ofensivo.
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    Os Ortopedistas do Poder. Uma conversa com Duarte Rolo

    19/06/2026 | 3h 51 mins.
    Como se esbanja por aí a eternidade, como se sacodem as suas pulgas, condenando os melhores vícios, a desordem sábia, e abrimos mão dos verdadeiros triunfos, da íntima noção dessas alegrias humildes, desse calor das existências comuns, do tempo em que os homens nasciam à beira das paixões e o único imperativo era não se afastarem demasiado. Mas, agora, precisam dar a volta, atravessar a perda de si mesmos, para reencontrarem algum sentido nas coisas que dizem e sentem, descobrindo com grande custo a «bela língua obscura dos condenados à morte», pois nesses renasce o fascínio pelos dias, pela sucessão de instantes que se ganha, se expande, e deles se ouve esse «soluço ilegível na frase humana», desbravando a perda, «a agonia nessa fronha desbotada,/ a vida finalmente vencida, a afonia,/ o tempo finalmente corroído, abolido…» Fomos apressados de tal modo e tão consistentemente que nalgum desvão nos livrámos de nós próprios. «Despacha-te. Eis a alegria e a miséria dos homens», escreve Benjamin Fondane. Porque todos sabemos que «os massacres começam pelo trigo», e que «o pão não brota da árvore do sono», fomos levados a fazer tanto, a sacrificar as melhores horas, tamanha energia apenas para não nos virem com a conversa. Basta pensar no muito que os homens suportam para não recair sobre eles a ênfase moralizadora dos demais. Mas enquanto a Terra segue e se afunda toda ela no não-ser, no vazio, o maior luxo é virar costas, não perder tempo entre esses que se mostram estranhos à sua própria vida, arrastar alheadamente o balão de soro do ócio de um lado para o outro, desfraldado, procurando escutar de tempos a tempos, na linha, nas zonas desumanas da produção, alguma réstia do espírito, alguém que solte «o grito agudo dos índios selvagens». Essa é a única música em que ainda pode confiar-se. Enquanto se multiplicam por toda a parte os deuses da vergonha, a linguagem está submetida a essas figuras de estilo com que se adornam os seres vencidos, dançando mecanicamente ao sabor de uma «música suja e intermitente, / como uma velha dor de dentes fiel e palpitante». E se tantos se queixam, se é a própria pele que soluça no vazio, se tantos lançam um olhar suplicante ao redor, só encontram a mesma expressão, o mesmo desalento: «não consigo sair desta armadilha infinita». «A fonte da vida afasta-se, está tão longe», adianta Fondane, parece que assistimos a uma «invasão-fantasma», e continuamos à procura de um peso, de algum sabor que nos leve noutro sentido… «Vidas gastas à procura de outras vidas gastas/ procuramos os nossos prazeres com órgãos desgastados»… «No cinema os homens estão lado a lado/ com o mesmo coração e as mesmas entranhas,/ desprendidos, estranhos à sua própria vida/ enterraram-na dentro de si como uma afronta que se oculta/ a sua própria vida no entanto que não ousam beijar na boca,/ que arrastam consigo, como um velho guarda-chuva,/ — esses velhos guarda-chuvas que se esquecem nos bancos de um eléctrico —». Por toda a parte a relação desses elementos impiedosos, enquanto um mundo de desejos equívocos nos encurrala aqui e ali, e os profetas dizem o que já sabemos, erguem mundos paralelos de forma a traduzir com um apelo fantástico o mesmo mal, como os homens são levados a trair-se intimamente, e, de tão propalados esses sóis da fome, deixam-se instruir, adaptam-se ao consumo da carne humana. «A formulação tortuosa do juridiquês», diz-nos Frank Herbert, «desenvolveu-se a partir da necessidade de ocultarmos de nós próprios a violência que tencionamos exercer uns sobre os outros. Entre privar um homem de uma hora da sua vida e privá-lo da própria vida existe apenas uma diferença de grau. Exerceste violência sobre ele, consumiste a sua energia. Elaborados eufemismos podem disfarçar a tua intenção de matar, mas, por detrás de qualquer exercício de poder sobre outrem, subsiste sempre a mesma pressuposição última: 'Eu alimento-me da tua energia.'» Por estes dias, vemos desenrolar-se esse argumento insidioso a favor de um aviltante darwinismo, lógicas de selecção social que instalam entre esse elemento de predação constante, criando-se a legitimidade moral para que cada um viva a sua vida como denúncia da fraqueza daqueles que não suportam a naturalidade de todo este enredo pavoroso. Os desempregados e os que se recusam a trabalhar são vistos como a pior corja, há um ódio crescente ao ocioso que, ao contrário dos demais, não dá o litro nem aspira a nenhum título, «antes procura saciar-se com apropria vida, sem os sucedâneos da técnica nem a multiplicidade de mercadorias», como escreve Vivian Abenshushan. «Prefere a despreocupação daquele que nada tem a perder à ansiedade permanente do investidor. A sua forma de vida é excêntrica, uma escolha soberana, marginal, distinta dos valores hegemónicos. Por isso, a sociedade não tolera o ocioso. Um bárbaro. Um inútil. Um desertor hedonista. Um imoral. Entregue ao gozo quotidiano e simples da existência, em que o encontro com os outros e a cooperação voltam a ser possíveis, o ocioso não pode despertar senão intranquilidade e suspeita. E há razões para isso: em toda a desocupação voluntária, prevalece o desprezo pela vida oficial, repleta de formalidades que destroem a saúde mental dos cidadãos. Os que insistem em ver no ocioso o cúmulo da indiferença, um ser apenas vivo, um chulo, e se sentem incómodos na sua companhia, fazem-no porque por detrás dele espreita um perigo: o deslocamento da normalidade, considerada intolerável pelo ocioso, para a esfera do jogo ou do carnaval. Este descarado vira tudo de pernas para o ar. É um provocados (mais insolente do que indolente), pois cometeu o pecado da singularidade, sempre à margem da vida gregária do trabalho, onde as pulsões particulares mal palpitam sob a repetição mecânica.» Alguém sempre nos dirá que por conta desses vícios, todos os outros se vêem obrigados a arcar com o peso, redobrar os seus esforços, trabalhar na sua vez. Mas em que tanto trabalham senão para degradar as próprias condições de vida? Enquanto isso, vemos como o Estado instiga essas formas de cupidez, impõe horas de trabalho obrigatório, institui os subsídios ao salário e o chamado ‘trabalho cívico’, sempre num esforço de reduzir e desvalorizar cada vez mais os custos com a mão-de-obra, fomentando e legitimando em grande escala o proliferante sector que apenas vive dos baixos salários e do trabalho de miséria. «O único sentido de toda esta impertinência consiste em levar o maior número possível de pessoas a não apresentar qualquer pretensão ao Estado e em exibir perante os excluídos instrumentos de tortura suficientemente monstruosos para que qualquer trabalho de miséria lhes pareça comparativamente mais aceitável», lê-se no Manifesto Contra o Trabalho, do Grupo Krisis. Podemos dar-lhes todos os argumentos, listar os indicadores em sentido contrário, explicar os efeitos desastrosos de toda a esta actividade imparável, tanta dela contribuindo apenas para o regime geral de sobreprodução, desperdício, dominação, opressão… Preferem sempre lançar-se nos braços dos nossos verdugos. No fundo, estão tão longe das paixões que noutros tempos explicavam a própria multiplicação, que só o trabalho explica as suas existências. Refastelam-se no cadáver de todos os deuses antigos, gostam de sentir a carne ferida pelos galos mecânicos, ouvem como o anúncio do muezzin o som cada vez mais exausto da vida, prestam culto a esses desastres encadeados. Que pode interessar-lhes o que tenham a dizer os filósofos? «E eu disse à minha própria esperança: Que queres de mim?/ Porque me atormentas incessantemente?» A estupidez mais do que uma convicção, tornou-se uma religião. É a ladainha daqueles que de forma inconsciente foram incorporando a máquina, e que têm a fábrica ou o escritório como o último templo, e têm uma fúria absurda contra tudo esses lirismos heréticos dos que pensam. Vão fazer do homem uma coisa tão descartável como todo esse lixo que tantos os orgulha. Horizontes a perder de vista de lixo. Mas como suprema provocação, em qualquer clareira, lá estará um tipo encostado seja ao que for, a ler uns versos, algo que destoe de toda essa canção rançosa que absorve a existência. E, assim, à margem deste tempo de raiva e loucura, algum filósofo-poeta como Cioran será lido por algum provocador-ocioso, que se compensará de toda essa estupidez, deixando-se estar, rindo de quem trabalha por trabalhar, deleitando-se num esforço estéril, imaginando que é possível realizar-se através de um labor assíduo. Lendo, rindo-se… «O trabalho permanente e ininterrupto embrutece, trivializa e despersonaliza. O trabalho desloca o centro de interesse do homem do domínio subjectivo para o domínio objectivo das coisas. Em consequência, o homem deixa de se interessar pelo seu próprio destino e fixa-se nos factos e nos objectos. Aquilo que deveria ser uma actividade de transfiguração permanente torna-se um meio de exteriorização, de abandono de si mesmo. No mundo moderno, o trabalho significa uma actividade puramente exterior; o homem já não se faz a si próprio através dele, faz coisas. O facto de cada um de nós ter de possuir uma carreira, de entrar numa determinada forma de vida que provavelmente não lhe convém, ilustra a tendência do trabalho para entorpecer o espírito. O homem vê o trabalho como algo benéfico para o seu ser, mas o seu fervor revela a sua inclinação para o mal. No trabalho, o homem esquece-se de si; mas esse esquecimento não é simples nem ingénuo, é antes aparentado com a estupidez. Pelo trabalho, o homem passou de sujeito a objecto; por outras palavras, tornou-se um animal diminuído que traiu as suas origens. Em vez de viver para si próprio — não de modo egoísta, mas para crescer espiritualmente — o homem tornou-se o miserável e impotente escravo da realidade exterior. Para onde foram o êxtase, a visão, a exaltação? Onde está a loucura suprema ou o prazer autêntico do mal? O prazer negativo que se encontra no trabalho participa da pobreza e da banalidade da vida quotidiana, da sua mesquinhez. Porque não abandonar este trabalho inútil e recomeçar sem repetir o mesmo erro dispendioso? Não bastará a consciência subjectiva da eternidade? Foi precisamente o sentimento da eternidade que a actividade frenética e a agitação do trabalho destruíram em nós. O trabalho é a negação da eternidade. Quanto mais bens adquirimos no reino temporal, quanto mais intenso é o nosso labor exterior, menos acessível e mais distante se torna a eternidade. Daí a perspectiva limitada das pessoas activas e enérgicas, a banalidade dos seus pensamentos e das suas acções. Não oponho o trabalho nem à contemplação passiva nem a um vago devaneio, mas a uma transfiguração irrealizável; apesar disso, prefiro uma preguiça inteligente e observadora a uma actividade intolerável e tirânica. Para despertar o mundo moderno, seria preciso elogiar a preguiça. O preguiçoso possui uma percepção infinitamente mais aguda da realidade metafísica do que o homem activo.»
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    O Apocalipse de Merda. Uma conversa com Michael Marder

    12/06/2026 | 4h 18 mins.
    Uma desoladora mistificação do nosso tempo opera-se pelo colapso da responsabilidade, como um processo de recitação em que o ser se expurgasse daquela impiedade no juízo que faz de si mesmo, deixando de reconhecer como a consciência só alcança um limiar sagrado no momento em que cada um de nós admite que o “sermos responsáveis pelos nossos actos até ao fim dos tempos é o verdadeiro juízo final com que temos de nos confrontar” (Steiner). Suponha-se, então, que nos seria possível construir uma excepção que revertesse aquele sentido de responsabilidade absoluta de que falava Dostoievski em Os Irmãos Karamazov (“Todos somos culpados de tudo, culpados por todos diante de todos, eu mais do que os outros.”), construindo-se um efeito de expiação automática de qualquer pecado, em que a culpa não implica já que nos refaçamos dos nossos erros, mas que estes sejam atribuídos ao regime de dissociação geral em curso. Podemos hoje reconhecer como se tem procedido a uma espécie de morbidez da projecção, em que, por um lado, os homens entram num transe, num confessionalismo constante das suas fraquezas, exprimindo aquele desgosto por si mesmos que parte então em busca de causas mais gerais, por outro, tornando-se especialistas em narrar a sua queda, superam assim qualquer transtorno e retiram até um gozo perverso de se verem a actuar como possuídos, como se o próprio céu não passasse de uma ficção infernal, um modo de antecipar a culpa, justificar-se enquanto se encarna os piores defeitos que se poderia reconhecer de fora, sendo este o supremo gozo estético. Seria uma forma de dispor intimamente dessa intuição que guiou Benjamin ao reconhecer como a humanidade, que antigamente, com Homero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, veio a tornar-se objecto de contemplação para si própria, e até de forma cada vez mais obsessiva. Ele notava que a alienação de si própria atingiu tal grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. De algum modo isto explica como cada um tomou a seu cargo esse movimento de queda para lá de qualquer possibilidade de redenção, em que os seres se deliciam com a possibilidade de enfrentar o juízo final com uma insolência desmedida, com tal desdém pela realidade, que os seus gestos estariam consagrados à produção e reprodução da destruição do mundo, apreciando essa simetria entre a sua devastação íntima e a degradação sucessiva dos planos exteriores, como se o Antropoceno fosse uma projecção de ordem quase libidinal, uma forma de reclamar, pela posse violenta, toda a vida e todo o espaço, revirá-los, cometer contra eles o acto mais infame, realizando assim as nossas fantasias despóticas. E isto porque chegamos a um tal estado de amputação sensível que não conseguimos retirar verdadeiro gozo de uma relação de proximidade e de dependência dos elementos, de tudo aquilo que revelava a nossa fragilidade intrínseca, essa ânsia de ligação. “Compreendo que Nietzsche tenha perdido os sentidos ao ver espancar um cavalo”, diz Steiner. “Trazemos a condenação dentro de nós. Caso contrário, porque teríamos destruído o planeta?” Talvez tenhamos encontrado um meio de vingar-nos da morte, sendo certo que todo o anseio e o terror que esta nos provoca é o resultado de vidas que não sabem cumprir-se. Assim, produz-se esse golpe desesperado que faz do mundo um imenso cadáver de modo a ser-nos mais fácil passar por cima dele, fazer da nossa morte um triunfo. Conseguimos reconhecer esta forma de buscar a própria catarse no lixo, a forma depravada de encontrar esse corpo que corresponde inteiramente aos nossos excessos, à dedicação de todas essas descargas ofensivas, não sendo já possível a ninguém escapar a esta encarnação doentia. Os nossos actos ganhariam assim esse prestígio do horror, como se participassem de uma profecia obscena, traduzindo esse horizonte cor de carne, como as costas de um moribundo… “Demos graças pela nossa violência, disse ele, mesmo que ela seja estéril/ como um fantasma, embora não nos leve a lado nenhum,/ porque estes caminhos não levam a lugar algum” (Bolaño). O lixo torna-se a condição necessário de toda a lógica de acumulação, e acaba por representar a verdadeira herança e o próprio destino que melhor exprime os anseios de um ser que adoptou nas suas rotinas um princípio de indiferença face aos efeitos que produz, sentindo-se desalojado da própria mente, desalojado daquele sonho que antes nos aproximava, sendo que agora todos os sonhos implicam a degradação dos outros, e até quando tenta transmitir aquilo que deseja, só é capaz de produzir um discurso em que todas as palavras se tornam medonhas. “E viajava de um lugar a outro/ dos sonhos/ qual verme da terra/ arrastando o seu desespero/ comendo-o”… Ninguém estranha assim toda esta raiva, e alguns põem-se a fantasiar com um suicídio planetário, sendo hoje mais fácil imaginar o fim do mundo do que a possibilidade deste mundo prosseguir sem eles, com a frieza com que hoje nos despedimos seja de quem for. A destruição do planeta torna-se assim uma espécie de ilustração do estupor de um ser que faz a escolha de transformar o ultraje dos anos, a consciência do fim. É como se os vivos já não pudessem senão acreditar nessa cumplicidade que liga aqueles que estão obcecados com a sua morte, esses que conspiram para dar a morte à morte. Só que, como nos faz ver Michael Marder, “a morte da morte deteriora fatalmente a vida”, e, assim, “os restos descarregados no vazadouro das nossas loucas aspirações à incorruptilidade, à preservação estática, acabando por interferir nos estreitos parâmetros da vitalidade. Perecemos devido aos nossos anseios de imortalidade perversamente realizados e arrastamos connosco grande parte da biosfera.” A vida que se serve como esse deplorável espectáculo entrou numa decomposição angustiante há algumas décadas, e isto dá-nos uma sensação de ver realizar-se o projecto de um mundo submetido a um contágio em que vemos os mortos continuar entre os vivos. “Custa-lhes mudar os costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres”, lê-se em A invenção de Morel. E se até certa altura a humanidade odiava aqueles seres que se dispunham a ter uma relação virada para o livro, o pensamento e a ética, e que lhe lembravam de que esta não era ainda verdadeiramente humana, se Steiner diz que essa era a verdadeira fonte de todo o ódio contra o judeu, esse que nos vinha exigir uma coisa que sabemos ser justa, mas que nos obrigava a dominar os nossos impulso e desejos, a certa altura, parece que a humanidade quis libertar-se dessas aspirações, e ela mesma realizou-se através de uma imortalidade pútrida, esta lixeira que significa a produção de uma realidade alinhada com o niilismo que por fim nos desobriga de qualquer obrigação moral para com este mundo. Neste episódio, Marder, que acaba de ver publicado entre nós Filosofia no Lixo – Uma Fenomenologia da Devastação, com selo da VS, veio orientar-nos neste confronto com esse monturo crescente de resíduos que sufoca, fende e diminui as regiões habitáveis do planeta, ao mesmo tempo que penetra a própria fibra do ser e exprime materialmente essa fantasia metafísica da economia capitalista que no seu crescimento monstruoso e sem trégua produziu um pesadelo de que não parece haver saída.
  • Enterrados no Jardim

    Um acepipe nas barricadas. Outra conversa com David Teles Pereira

    06/06/2026 | 4h 36 mins.
    Se as perdêssemos de vista por umas horas, não saberíamos reencontrar as nossas vidas pelo cheiro, nem pelo gemido que fazem, nem daríamos com esses corpos tão abatidos que só de um certo ângulo, a poucos palmos do espelho, nos parece que sim, serão os nossos, porque repetem vagamente os mesmos gestos ou expressões. Mas mesmo nisso parece instalar-se um certo desfasamento, algum atraso, e são poucos aqueles que nalgum dos seus rastros se mostram firmemente fiéis à sua juventude. Reserva-se esse elogio hoje a tão poucos: “Pouco antes de morrer, o que ele escrevia, o modo como continuava a viver, conservavam a virulência, a agressividade e a independência dos seus 25 anos.” Em certa medida a poesia era uma resistência da juventude pela vida fora, o doloroso alarme mantido na relação com o mundo, a impossibilidade de se saciar com aquele pão com que os demais empurram seja o que for. Chega uma altura em que o abandono parece a nossa melhor arma. Quem ama não faz contas, mas hoje tudo se guia por esses sinais: soma: multiplicação… “O mundo moderno”, escrevia Péguy, “não é universalmente prostituível por luxúria. É totalmente incapaz disso. Ele é universalmente prostituível porque é universalmente intercambiável”. Queremos dizer-nos alguma coisa, mas até as nossas palavras parece que tilintam mais do que soam, estão cheias da frieza do cálculo, não passam de fracções. Ora, o dinheiro não exprime outra coisa senão a desolação do infinitamente reconvertível. Assim, cada palavra vale tanto ou tão pouco como outra qualquer. “Quando o dinheiro vale alguma coisa, a palavra não vale nada. Quando a palavra vale, o dinheiro não vale nada” (comité invisível). Por estes dias, olhando à volta, até isso a que chamam luta já pouco se distingue do conformismo, da resignação. “Quando a História for escrita como deve ser, os homens ficarão admirados do comedimento e da grande paciência das massas e não da sua ferocidade”, assevera o autor de Os Jacobinos Negros. Chega-se a uma altura em que se percebe que o tempo está decididamente contra nós, mas em vez de isso reverter a favor dessa doença mortal, dessa razão desesperada, todos ainda aguardam que a sua situação se resolva. E vamos sair mais algumas vezes e reivindicar esses salários de fome, gratos pela nossa miséria, dando por nós tão longe de qualquer ambição existencial, a qual teria de passar por “repelir para o mais longe possível as relações hostis urdidas na esfera do dinheiro, da contabilidade, da medida, da avaliação”. Os do comité invisível adiantam que, por esta altura, a economia já não é somente aquilo de que devemos sair para deixarmos de ser esfomeados, mas é aquilo de que é necessário sair para viver, para simplesmente estar presente no mundo. O mais grave, assim, é que a cada dia que passa se colhem cada vez mais provas da impossibilidade de dois ou mais se encontrarem num lugar e num tempo, pois mesmo os nossos ímpetos aventurosos estão distribuídos por frequências de onda que só por um acaso milagroso se combinam e enredam. “Após uma ausência de que ninguém teve a culpa/ ficamos acanhados um ao pé do outro/ e as nossas palavras parecem mais recentes do que nós,/ como se tivéssemos de voltar ao momento em que nos conhecemos/ e recuperar-nos até ao presente”, lê-se nuns versos de Linda Pastan, num poema em que ela reconhece como o maior perigo que enfrentam os amantes é “toda essa ressaca/ da vida quotidiana, oculta mas perigosa,/ que tão depressa nos puxa a ambos para o fundo”. De resto, quem ainda se sujeita aos destratos de andar sem rumo, aprender com dificuldade os idiomas do acaso pela hipótese de provar o néctar da beira da estrada, dos fins de mundo, dessas zonas limite? “A economia, é este o seu princípio, faz-nos correr como ratos, para que não estejamos nunca lá, a descobrir o segredo da sua usurpação: a presença./ Sair da economia é fazer emergir o plano da realidade que ela esconde. A troca mercantil e tudo o que ela comporta de dura negociação, de desconfiança, de engano”… Aquele brilhante judeu que se matou por receio de ser entregue à Gestapo, quando tentava escapar pelos Pirenéus, notou que articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “como ele de facto foi”, mas apoderar-se de uma recordação, tal como ela relampeja no instante de perigo. O pior do nosso tempo é que os perigos se multiplicam, e se tantos fazem questão de os registar, diagnosticar, se passamos boa parte do nosso tempo comovidos com a nossa infindável capacidade de sofrermos com as dores mais distantes, depois ninguém faz nada em relação àquilo que está mais próximo. Falta aquela capacidade própria dos poetas que, no entender de Cortázar, se reconheciam menos pelo que os trancava em si mesmos e mais naquilo que lhes era próximo, que os fazia sentir implicados no que tinham ao seu redor. “Falo da responsabilidade do poeta, esse irresponsável por direito próprio, esse anarquista enamorado de uma ordem solar e nunca da nova ordem ou do slogan que faz marchar ao mesmo passo cinco ou setecentos milhões de homens numa paródia de ordem. Falo de algo que desagradará profundamente aos comissários, aos jovens turcos ou aos guardas vermelhos; falo de uma condição que ninguém descreveu melhor do que John Keats numa carta a que, há muitos anos, chamei a carta do camaleão e que mereceria ser tão célebre como a ‘Lettre du voyant’. O seu prelúdio deixa-se perceber numa frase escrita um ano antes e quase de passagem. Keats diz ao seu amigo Bayley que nunca esperou outra felicidade além da do puro presente e acrescenta, como quem não quer a coisa: ‘Se um pardal pousa junto da minha janela, tomo parte na sua existência e debico no chão…’” Por estas bandas, ninguém merece um reflexo na carne dos outros, um eco seu que floresça a tempo de lhe dar algum sinal, e tudo o que de mais verdadeiro e sensível acontece, perde-se como se não tivesse acontecido. Vamos fazendo a crónica de “uma pequena nação de pequenos assassinos caseiros” (Luiz Pacheco), por incapacidade de nos sujeitarmos às exigências da admiração, que implicam desde logo deixar de lado o cálculo. É a típica condenação a que nos sujeita um tempo medíocre. Envelheces tão cedo, por essa impossibilidade de escolher, por nos sairmos sempre pior num registo impetuoso, quando toda a eloquência é sentida como uma ofensa. Alheios ao seu próprio sonho, decalca o Pacheco no António Sérgio, para falar de nós, seres caídos nesta espiral vagabunda, num país aos bocados, que se reconhece por este cheiro a despegado, que se mantém colado apenas para favorecer algum esquema. E o Pacheco foi vendo, com o acumular dos anos, este desamparo de “tantos de nós ludibriando os próprios sonhos da sua juventude, anquilosando ambições mais do que legítimas, minguando-se, limitando-se (…) sem horizontes já para inventar algo melhor. Pendurados na fezada de um futuro, que já não vai ser para eles, isto é, que já os apanha disformes: gordos, apatetados, com cirroses… envelhecidos prematuramente por dentro, e muito sono nas almas, leia-se consciências.” E talvez porque não há luta em comum que nos arranque desse casulo, dessa clausura, desse castigo de se ver a definhar para fazer carreira como “eu”, e nos devolva uns aos outros. “Há qualquer coisa de prostituível em todo o lado em que domina o nosso ‘valor social’, em todo o lado onde se troca uma parte de nós pela mínima retribuição, seja ela, financeira, simbólica, política, afectiva ou sexual” (comité invisível). E, neste ponto, vale a pena retomar a correspondência de Keats, que, numa carta a Richard Woodhouse, trocou o pardal pelo camaleão: “Quanto ao carácter poético em si... não tem um eu; é tudo e é nada: não tem carácter; deleita-se tanto com a luz como com a sombra; vive naquilo de que gosta, seja horrível ou belo, excelso ou humilde, rico ou pobre, mesquinho ou elevado. Sente tanto prazer em conceber um Iago como uma Imogena. Aquilo que choca o filósofo virtuoso deleita o poeta-camaleão... Um poeta é a coisa menos poética que existe; como não tem identidade, tende continuamente a encarnar-se noutros corpos... O poeta não possui nenhum atributo invariável; é, certamente, a menos poética de todas as criaturas de Deus.” Neste episódio, o David voltou para nos dar uma hipótese de tirarmos a barriga de misérias e saltarmos da greve geral para umas luxuriantes patuscadas, conseguidas na base de todo um arsenal de poções e fórmulas científicas aplicadas à exploração gastronómica, sem abdicar, no entanto, daquela elementar dose de porrada e humilhações sem as quais nunca se faz nada, além dos gerais iscos que convencem os lorpas de que têm muita sorte em ter um chulo a ocupar-se deles. Vamos também dar um passeio pela feira do livro de Lisboa pela mão do Pacheco e ouvir as últimas quanto a editores a quem, por maior que seja a crise, nunca há-de faltar um tremendo jeito para o negócio.
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Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que só aí andam a causar pavor e fazer da vida uma austera, apagada e vil tristeza.
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