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Daqui a cerca de cinco bilhões de anos, o Sol vai começar a morrer. E quando uma estrela como a nossa morre, ela não simplesmente apaga. Ela inflama, incha, devora os planetas mais próximos, despeja metade da própria massa no espaço em pulsos sucessivos, deixa para trás uma nebulosa planetária de anos-luz de extensão e termina como um caroço denso do tamanho da Terra, sustentado por pressão quântica, esfriando ao longo de trilhões de anos rumo à temperatura do fundo cósmico.
Esse é o destino do Sol. E também da Terra, de Júpiter, das luas geladas que hoje guardam oceanos sob crostas de gelo, do cinturão de asteroides, de tudo o que orbita por aqui. Neste episódio, conto essa história do começo ao fim. Não a partir do nosso ponto de vista humano, que vai ter sumido muito antes da fase mais dramática, mas a partir da física e da observação direta de outras estrelas que estão neste exato momento passando pelos mesmos estágios.
Mercúrio é engolido inteiro pelo Sol em expansão. Vênus é vaporizado. A Terra fica pendurada numa incerteza real, debatida em artigos atuais, entre ser engolida ou escapar como casca calcinada. Os oceanos terão evaporado um bilhão de anos antes, porque o Sol já está aumentando de brilho num ritmo lento e inexorável. O destino biológico do planeta se decide muito antes do destino físico.
As luas geladas do sistema externo entram, por algumas centenas de milhões de anos, na zona habitável temporária do Sol gigante vermelho. Europa, Ganimedes, Calisto, Titã, todas com um intervalo em que a água pode estar líquida na superfície. É uma janela curta em escala cósmica, e talvez a última oportunidade para vida nascer no nosso sistema.
Depois da fase de gigante vermelha, o Sol expele o envelope numa nebulosa planetária. O que sobra no centro é a anã branca. Carbono e oxigênio com metade da massa solar comprimida num volume do tamanho da Terra. Uma colher de chá daquele material pesa uma tonelada e meia.
Aqui a história fica menos conhecida e mais interessante. Discos de detritos só se formam em torno de anãs brancas depois que elas esfriam abaixo de 27 mil Kelvin. Discuto o trabalho de Jordan Steckloff, do Planetary Science Institute, que explicou esse limiar térmico em 2021. Conto sobre a cristalização do núcleo da anã branca, prevista em 1968 e finalmente confirmada em 2019 por Pier-Emmanuel Tremblay com dados do satélite Gaia, descobrindo um engarrafamento estatístico no diagrama de Hertzsprung-Russell que corresponde a estrelas em transição de fase, com o calor latente atrasando o resfriamento por bilhões de anos.
Trago a descoberta recente da equipe de Érika Le Bourdais, da Universidade de Montreal, publicada em outubro do ano passado, sobre a anã branca LSPM J0207+3331. Três bilhões de anos depois da morte estelar, ela ainda está sendo poluída por treze elementos pesados de um corpo rochoso despedaçado pelas suas marés. Sistemas planetários continuam gravitacionalmente ativos muito depois do que se imaginava.
E entramos no tempo profundo. Cem bilhões de anos depois da morte do Sol, encontros gravitacionais com estrelas vizinhas terão arrancado quase todos os planetas remanescentes. A galáxia inteira se desmonta. A Via Láctea já vai ter se fundido com Andrômeda. As estrelas restantes são ejetadas para o espaço intergaláctico. A anã branca que um dia foi o nosso Sol continua esfriando, atravessa a transição de anã negra, e em prazos de dez elevado a cem anos, se a radiação Hawking for universal, se dissolve em radiação.
Mas antes da dissolução final, ela cristaliza por inteiro. Carbono comprimido sob pressão extrema vira essencialmente um diamante do tamanho de um planeta. O destino do Sol é um cristal frio vagando no escuro de um universo cada vez mais vazio. Uma imagem que muda a maneira como você olha para o céu de manhã.