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- Partimos de Bassorá, cidade nas margens da antiga Mesopotâmia, para seguir a história da origem do calendário da Égira. O ponto de partida é quase burocrático: uma carta enviada para Medina sem indicação do ano. Mas dessa dificuldade administrativa nasce uma questão muito maior: como começar a contar o tempo de uma nova comunidade, de um novo império, de uma nova visão do mundo?
Neste episódio, Rui Tavares percorre a história da criação do calendário islâmico e explica por que razão venceu a Hégira — a migração de Maomé de Meca para Medina — como marco inaugural da nova era. Pelo caminho cruzam-se religião, política, cronologia e memória, num exercício que recorda que os calendários não são neutros: são formas de organizar o passado e dar sentido à história. Porque, afinal, contar o tempo é também uma maneira de contar o mundo.
See omnystudio.com/listener for privacy information. O CR7 do ano 147: Caio Apuleio Diocles, o atleta lusitano que terá ganho mais dinheiro e mais fama que Cristiano Ronaldo
09/07/2026 | 23 mins.A notícia da possível despedida de Cristiano Ronaldo dos Campeonatos do Mundo leva-nos à singular história de Caio Apuleio Diocles, ou Lamecus, talvez o mais célebre e rico desportista da Antiguidade. Entre a história e a curiosidade, este episódio estabelece um paralelo fascinante entre duas figuras ligadas ao atual território português, separadas por quase dois mil anos.
Identificado nas inscrições romanas como lusitanus e tradicionalmente associado a Lamego, Diocles participou em mais de quatro mil corridas de quadrigas, conquistou mais de mil e quatrocentas vitórias e acumulou uma fortuna que, em valores atuais, poderá corresponder a milhares de milhões de euros. Com base nas inscrições romanas que preservaram a sua memória, o episódio conduz-nos ao universo das corridas de quadrigas, o grande espetáculo de massas do Império Romano, onde a fama, o dinheiro e as rivalidades entre equipas mobilizavam multidões.
Uma comparação inesperada entre dois campeões que marcaram o seu tempo, Ronaldo e Diocles, revela como o culto dos grandes atletas atravessa os séculos.
See omnystudio.com/listener for privacy information.- A recente panteonização do historiador francês Marc Bloch e da sua mulher, Simone Vidal, oitenta e dois anos após as suas mortes, serve de ponto de partida para uma profunda reflexão de Rui Tavares sobre a história e para que serve a história. Marc Bloch e Simone Vidal entraram, por proposta de Emmanuel Macron, no Panteão de Paris, onde são agora evocados através de cenotáfios que preservam a sua memória, uma vez que os seus restos mortais permanecem no local de origem.
Figura nuclear da historiografia contemporânea, fundador da Escola dos Annales e da corrente da História das mentalidades; defensor de uma História entendida como ciência da humanidade e da mudança, Bloch distinguiu-se também pelo seu compromisso ético e político: recusou o exílio e integrou a Resistência francesa, acabando por ser preso e executado pela Gestapo em 1944.
Da interrogação do seu filho quando menino “para que serve a História?” nasceu Apologia da História, obra interrompida pela violência da guerra.
Mostrando-nos como a família se posicionou politicamente face à panteonização de Bloch e Vidal, Rui Tavares aproveita para refletir sobre o legado do historiador: a busca da verdade, a empatia pelo passado e a coragem perante a adversidade.
See omnystudio.com/listener for privacy information. O Queijo e os Vermes: o legado Carlo Ginzburg nos modos modernos de fazer e pensar a história
25/06/2026 | 14 mins.Interromper a programação prevista para falar do historiador Carlo Ginzburg por ocasião da sua morte, não é um gesto circunstancial, mas uma exigência da própria prática da história. Neste episódio Rui Tavares traz-nos um pouco da biografia de Ginzburg, evoca como o seu pensamento moldou a forma como olhamos para o passado e, de certo modo, reconhece a sua própria filiação intelectual.
Num século marcado por grandes sínteses e ambições de totalidade, a proposta de Carlo Ginzburg foi a de reduzir a escala. Não para diminuir a história, mas para a tornar mais densa. Na obra “O Queijo e os Vermes”, em vez de vastos panoramas de uma época, mostra-nos um moleiro; em vez de procurar no pormenor a confirmação da norma, endereça o atípico como forma de questionar as certezas acerca do passado; em vez de usar os documentos do passado como provas, trata o arquivo como um terreno vivo, quase ao modo antropológico.
Interromper para falar de Ginzburg é, por isso, também lembrar que fazer história implica saber parar — e reconhecer quem nos ensinou a ver no ínfimo uma outra forma de grandeza.
See omnystudio.com/listener for privacy information.Magnífica Humanitas: o que a encíclica de Leão XIV nos diz sobre a IA e o futuro da humanidade
18/06/2026 | 35 mins.Na encíclica Magnifica Humanitas, de maio de 2026, o Papa Leão XIV apresenta a inteligência artificial como uma questão existencial, comparável a outros grandes desafios da humanidade, e coloca-a perante um dilema: entre uma nova Babel — marcada pela perda de sentido humano — e a construção de uma comunidade assente na responsabilidade partilhada.
A partir deste documento, Rui Tavares retoma a reflexão sobre a história do futuro, lendo-o nos sinais do presente, como faria um historiador.
Na encíclica Leão XIV defende a cooperação, critica o nacionalismo e a ausência de regulação global, convocando referências de Santo Agostinho a Hannah Arendt e Tolkien. Mas o episódio detém-se também no que falta: a ausência de Pentecostes, num tempo em que a tecnologia começa a ultrapassar barreiras linguísticas.
Entre história, tecnologia e ética, este episódio propõe escutar o presente como um arquivo vivo, procurando nele os sinais do futuro. Porque, bem vistas as coisas, e como William Gibson sublinha, “o futuro já está aqui, só não está bem distribuído”.
Nota: Todas as músicas utilizadas neste episódio foram geradas por IA.
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About Tempo ao Tempo
Tempo ao Tempo é um podcast de histórias da História, de passado, presente e futuro, e da mudança da memória no tempo. Aqui vamos percorrer a micro-história e a História global, a História europeia e a História nacional, sempre com o objetivo de atualizar os dilemas das pessoas do passado e colocar em perspetiva histórica os nossos dilemas do presente. Com o tempo, vão aparecer texturas e um padrão narrativo, que ajudará a fazer sentido do todo. Mas o todo será sempre multímodo, polifónico e eclético. De muitos caminhos.
Todas as quintas-feiras um novo episódio escrito e narrado por Rui Tavares, com apoio à produção de Leonor Losa.
A sonoplastia de Tempo ao Tempo é de João Luís Amorim e a capa é de Vera Tavares e Tiago Pereira Santos.
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